sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Sectarismo Intolerável dos Prosélitos Ultras do Bayern F.C.

Em tempos, Churchill afirmara que "fanático é o sujeito que não muda de ideias e não pode mudar de assunto", enquanto que, mais recentemente, um pensador da América do Sul (Leoni Kaseff) veio considerar o fanatismo como "(...) um estado d'alma, em que a paixão do crente se converte em alucinações". Ambos os pensamentos descritos, embora proferidos num contexto e realidade diferentes sobre o objecto do presente artigo, são perfeitamente aplicáveis ao mesmo, isto é, à "novela" lastimável que tem vindo a desenrolar-se com a mais recente contratação do Bayern Munique: Manuel Neuer.

Histórico: Manuel Neuer é um jovem guarda-redes (25 anos) nascido em Gelsenkirchen, cidade natal do Schalke 04, clube onde deu os passos iniciais no mundo do futebol quando entrou para as camadas jovens com apenas 6 anos de idade. Titular e detentor de uma qualidade inegável, sendo também indiscutível na Selecção Nacional Alemã, foi recentemente contratado pelo todo-poderoso Bayern pela quantia de € 22 milhões de euros. Contudo, por mais estranho que pareça, os problemas com o jogador tiveram início quando o próprio tornou pública a sua vontade em sair do único clube que conheceu até à data, tendo vindo, inclusivamente, a pedir desculpa aos adeptos por tal manifestação quando se apercebeu que a crítica destes intensificara-se, já não o perdoando. Note-se até que, por tal ousadia e imediatamente após ter ganho a Taça da Alemanha, houve um adepto do Schalke que o agrediu na cara, dando-lhe um forte carinho com a palma da sua mão.

Ora, numa altura em que certamente pensava que se via livre de um problema por força da sua mudança profissional para a Baviera, Neuer depara-se com um novo obstáculo no seu novo clube, originado, desta vez, pelos Ultras (Grupos Organizados de Adeptos - GOA) do Bayern de Munique. Se "apenas" fora a liberdade de expressão do goleiro a ser recriminada e condenada nos últimos tempos que passou em Gelsenkirchen, certo é que a sua relação com os adeptos mais radicais do seu novo empregador começa da pior e mais indesejável forma, senão vejamos: o jornal alemão "Dier Spiegel" avançou com a publicação de uma notícia de que fora imposto a Neuer, pelos radicais, um verdadeiro código de conduta, do qual ressaltam à vista regras como i) estar proibido de beijar o símbolo do clube nas camisolas; ii) não aproximar-se da bancada sul onde se encontram os ultras; iii) não lhe é permitido ajoelhar-se em frente à equipa e cantar a "Humba" (canção popular nos estádios da Budensliga); iv) não poderá usar o megafone da claque para entoar cânticos (tradição para os jogadores mais mediáticos) e v) não pode atirar a sua camisola para a bancada.

De facto, motivação não deverá ser o sentimento que mais passa (e que tenderá a passar nos próximos tempos) pela pele de Neuer. Quando iniciou os treinos no Bayern, foi colocada uma faixa pelos intolerantes que afirmava: "Podes defender todas as bolas, mas nunca te vamos aceitar com a nossa camisola". Animador e incentivador, correcto? Em nada! Mas, mesmo assim, o jovem Neuer não virou a cara à luta e decidiu reunir-se com alguns elementos de cinco grupos de fanáticos alemães, não se tendo movido qualquer peça no tabuleiro: "Ele disse-nos como se iria comportar com os adeptos no futuro, mas a nossa opinião não mudou. Durante a reunião, explicámos-lhe as regras de conduta. Se ele mantiver as distâncias em relação a nós, paramos de protestar e de organizar manifestações contra ele", retira-se de um comunicado dos radicais.

Já quanto ao clube alemão e respectivos representantes da sua estrutura, outra coisa não seria de esperar senão a intransigência na defesa do seu novo activo. Assim mesmo manifestaram o próprio treinador e Presidente do clube, agastados pela natural impaciência que o assunto faz suscitar. Uma coisa, no entanto, é certa: não obstante a causa-efeito que a presente situação impenderá sobre Neuer, torna-se previsível que os Ultras não lhe irão perdoar um golo que seja contra o Schalke ou em qualquer outro jogo de carácter mais sensível, como os verdadeiros clássicos ou os jogos de cariz europeu.

Numa altura em que o Presidente da UEFA, Michel Platini, deslocou-se à Grécia para reunir-se com o Primeiro-Ministro, Ministro da Cultura e do Turismo e com o Presidente da Federação Helénica de Futebol relativamente a assuntos primordiais como a violência, racismo, fixação antecipada de resultados nas competições, doping e arbitragem, urge cada vez mais apressar a intensificação da aplicação destas medidas, sob pena de perder-se o controlo sobre o comportamento dos agentes (não) desportivos que assistem e, de alguma forma,  influenciam o futebol europeu.

O caso de Neuer constitui mais um atentado declarado à integridade no desporto e à protecção da sua própria especificidade como valores sociais inatacáveis, banalizando uma recém-nascida prioridade da União Europeia assumida no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE). A surpresa, pasme-se, é ainda maior quando constatamos que o caso que esteve em análise advém de uma das Ligas mais respeitadas e competitivas do mundo e que serve como um dos poucos exemplos actuais no que respeita a termos de gestão e solidariedade financeira que, nos últimos tempos, tanto tem vindo a abalar o mundo futebolístico. Existem, sem sombra de dúvidas, regras e regulamentos aplicáveis ao caso Neuer, entre eles o Código Disciplinar da FIFA e aplicável aos adeptos (spectators - artigo 3.º, alínea h)). 

Será interessante, portanto, seguir com atenção a relação que se iniciou complexa (para não mencionar condenada) entre o jogador e adeptos do clube bávaro, não podendo deixar de concordar com Friedrich Nietzsche quando este afirmou que o "fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos".

Sem comentários:

Enviar um comentário